domingo, 9 de setembro de 2012

Dica: História concisa da escrita (Charles Higounet)

Grande parte das nossas explicações do blog são provenientes desse livro. A leitura é muito enriquecedora e simples!


HIGOUNET, Charles. História concisa da escrita. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.


Informações do livro no Skoob, aqui.

Humor: Como ensinar o alfabeto para as crianças nos dias de hoje


As escritas rúnicas

Era a escrita comum dos povos germânicos, sendo uma escrita de inscrições geralmente curtas. Seu alfabeto, chamado de futhark, possuía vinte e quatro sinais de formas lineares e angulosas muito simples. Desapareceu na Germânia no final do século VIII, após a conversão dos saxões ao cristianismo.

Figura 01: Alfabeto rúnico

Para quem gosta de Harry Potter: A Hermione estuda bastante as runas antigas! Em vários momentos da história ela menciona essa paixão, e foi em runas antigas que estava o exemplar de "Os contos de Beedle, o bardo" que Dumbledore deixou para Hermione em Harry Potter e as Relíquias da Morte!

Figura 02: Hermione, Rony e Harry conversando sobre a história originalmente escrita em runas.


Os alfabetos surgidos do grego: copta, gótico e eslavo

O alfabeto grego deu origem a numerosas outras escritas, dentre elas: copta, nome dado à população indígena do Egito, anotava a língua egípcia com um novo alfabeto constituído de vinte e quatro letras diretamente adaptadas do grego e outras sete provenientes do demótico; o alfabeto gótico foi inventado no século IV pelo bispo Wulfila para notar a língua germânica dos godos e consiste em vinte e seis letras: vinte inspiradas no grego, outra no latim ou na escrita rúnica; e o alfabeto eslavo, que atribui a sua invenção a razões religiosas. 

Figura 01: Caracteres coptos (4ª coluna)
Curiosidades sobre hieróglifos, aqui.

Figura 02: Alfabeto gótico

Figura 03: Alfabeto eslavo

A separação das igrejas gregas ortodoxa e romana, dividiu o mundo eslavo em dois domínios alfabéticos: os russos, os ucranianos, os búlgaros e os sérvios adotaram o alfabeto cirílico; os poloneses, os tchecos, os eslovacos, os eslovenos e os croatas optaram pelo alfabeto latino.

Figura 04: Alfabeto cirílico

Figura 05: Alfabeto latino

O alfabeto grego

Não há dúvida quanto a origem fenícia do alfabeto grego. De acordo com Higounet (2003, p. 87), “a forma primitiva de quase todas as letras gregas, sua ordem e seu nome dão testemunho dessa origem e estão de acordo com a tradição”.

Figura 01: Alfabeto grego clássico

As primeiras inscrições com o alfabeto grego eram feitas da direita para a esquerda. Posteriormente a orientação é invertida: esquerda para direita. O alfabeto grego clássico, século IV, é composto por vinte e quatro letras, sendo elas vogais e consoantes.

Após ser constituída, a escrita começou a se diversificar. As inscrições gravadas em pedras conservaram por um longo tempo as formas clássicas. Os papiros, datados do século IV a. C., permanecem fiéis às formas da escrita lapidar. A partir da era helenística é possível distinguir três tipos de escritas: a dos manuscritos, que é uma caligrafia: suas formas não se distanciam do clássico; a escrita de chancelaria onde as letras, ligeiras e de módulo bem grande, tendem a ultrapassar as linhas horizontais da escrita, embaixo e em cima; e a escrita dos documentos privados, onde os caracteres são simplificados para obter rapidez.

Figura 02: Transformações de algumas letras ao longo do tempo e civilizações

As escritas líbia e ibérica

Inscrições que revelam, a partir do século II a. C. na África do Norte, uma escrita dos dialetos indígenas é chamada de líbia. Essa escrita comporta vinte e quatro sinais consonantais e é traçada tanto verticalmente como horizontalmente, da direita para a esquerda. 

As inscrições em caracteres ibéricos só se encontram na costa oriental da Península Ibérica e podem ser lidas da esquerda para a direita e a maioria dos seus sinais tem forma geométrica.

Figura 01: Signário ibérico nor-oriental dual

As escritas indianas

As escritas indianas aparecem no século III a. C. e se apresentam sobre dois tipos: kharosthi e brahmi. A primeira deriva de formas gráficas da escrita aramaica e desapareceu sem deixar descendência. A segunda, entretanto, tornou-se a base de todas as escritas do grupo de países indianos.

Figura 01: Escrita Brahmi

As escritas sul-arábicas e etíopes

Várias letras do alfabeto sul-arábico parecem-se com letras fenícias arcaicas e essa escrita consiste-se em vinte e nove sinais consonantais de formas lineares e bem simétricas. As línguas semíticas da Etiópia foram transcritas a partir de escritas surgidas do alfabeto sul-arábico e compreende vinte e seis sinais consonantais que podem tomar sete formas diferentes, dependendo da vogal que venha depois deles.

A escrita árabe

Dentre os alfabetos que surgiram ao longo dos séculos, a do alfabeto árabe é a considerada obscura. Isso porque se estima que ele tenha se derivado do alfabeto nabateu, que por sua vez originou-se da escrita aramaica. Porém, não está claro como, onde e quando aconteceu essa transformação de um para outro. É, junto com o hebraico quadrado, a única escrita consonântica ainda em uso.

Figura 01: Alfabeto árabe tradicional

O alfabeto possui vinte e oito letras e a escrita é traçada da direita para a esquerda. Foi adotado por povos muçulmanos que não falavam o árabe, contudo, passaram a escrevê-lo.

Para conhecer mais sobre a língua árabe, clique aqui.

As escritas aramaicas e o hebraico quadrado

Os arameus também adotaram a escrita fenícia para notar a sua língua, desde o século IX a. C.. As inscrições fenícias eram copiadas nas monumentais inscrições aramaicas e a escrita cursiva é também derivada da cursiva fenícia. Os mais preciosos documentos dessa escrita, conforme Higounet (2003, p. 70), “são os papiros encontrados em Elefantina, perto de Assuan no Egito, onde um rei estabelecera uma colônia militar de sírios e judeus”.

Figura 01: Um papiro egípcio, datado de 1160 a.C., que se encontra atualmente no Museu Britânico, é o mais longo que se conhece até hoje: mede 44m.

O alfabeto hebraico também proveio da escrita aramaica e se vincula, de certa forma, ao alfabeto fenício por serem, o fenício e o hebraico, dialetos da mesma língua cananeia. Os primeiros documentos marcados por essa escrita remontam ao século II a. C..

Figura 02: alfabeto hebraico

A escrita hebraica possui, entre as suas vinte e duas letras, apenas consoantes e a sua leitura acontece, naturalmente, da direita para a esquerda.

O alfabeto fenício

A escrita arcaica de Biblos difundiu-se amplamente desde o século X a. C. Contudo, Tiro, com a atividade dos seus navegadores, seus negociantes e pela fundação das suas colônias, contribuiu para a propagação do alfabeto fenício. São responsáveis por nos transmitirem as formas desse alfabeto as inscrições fenícias de Chipre, datadas do século IX-II, e a escrita da colônia tíria de Cartago na África, século IX – 146 a. C.. 

O alfabeto fenício clássico manteve as vinte e duas letras do alfabeto arcaico, entretanto, as formas dessas letras gravadas tornaram-se um pouco mais angulosas e delgadas que antes. Em suma, a escrita fenícia apresenta-se sempre em linhas horizontais orientadas da direita para a esquerda.

Figura 01: Alfabeto fenício

As origens do alfabeto

Os egípcios foram os que tiveram, ainda que confusamente, a ideia de escrever as consoantes isoladas. Os povos semíticos ocidentais, habitantes das margens do mar Vermelho e do Mediterrâneo, também pensaram essa hipótese, talvez sob influência dos egípcios, durante o segundo milênio. O fato de que a base das palavras, nas línguas dessas populações, é essencialmente constituída de consoantes, facilitaria os esforços nesse sentido.

Figura 01: Hieróglifo Egípcio

Conforme Higounet (2003, p. 60) “o elo mais seguro da pré-história do alfabeto é a escrita pseudo-hieroglífica das inscrições de Biblos, descoberta por M. Dunand e decifrada por E. Dhorme”. Essas inscrições de Biblos são dez, gravadas em pedra ou bronze, sendo que a primeira foi revelada em 1929, podendo ser datadas do século XV ou XIV antes da nossa era.

Para E. Dhorme (apud HIGOUNET, 2003) a língua desses textos é o mais puro fenício e cada escriba tinha a sua disposição mais sinais para representar os sons do que o necessário. O estudioso aponta, ainda, duas particularidades dessa escrita: o exemplo da passagem de uma escrita silábica para uma escrita alfabética e o valor fonético dos sinais sendo independente da sua grafia. Os gravadores de Biblos acordaram que tal figura representaria tal som, não importando de onde tenha surgido ou emprestado.

O mecanismo do alfabeto foi alcançado, por diferentes meios e por volta do século XIV a. C., pelos escribas de Ugarit.

Figura 02: Alfabeto cuneiforme de Ugarit

O aspecto da escrita de Ugarit é cuneiforme e a sua língua se classifica no grupo semítico cananeu. 

Contudo, é nos Biblos que encontrou-se uma série de textos que possuem rudimentos gráficos da escrita alfabética dos quais nos servimos ainda hoje. Desses documentos, os mais antigos suscetíveis de datação, a inscrição do túmulo do rei Ahiram, a epígrafe de Asdrúbal e as incrições de Abibaal e de Elibaal, são anteriores ao século X.

As escritas alfabéticas


Figura 01: Nosso alfabeto atual

E agora, depois de milhares e milhares de anos, e depois dos hieróglifos, demóticos, nilóticos, crípticos, rúnicos, dóricos, dônicos e muitos outros ticos ou nicos..., o velho e bravo alfabeto simples, fácil – A, B, C, D, E e o resto – retomou sua forma de antigamente para que todas as Bem-Amadas possam aprendê-lo mais facilmente quando forem bastante grandes.
Rudyard Kipling, Histories comme ça.


Segundo Charles Higounet (2003), definimos o alfabeto como um sistema de sinais utilizados para exprimirem os sons da linguagem. A palavra, como a conhecemos, tem origem no latim, alphabetum, que nada mais é do que a junção dos nomes das primeiras letras do alfabeto grego, alpha e beta.

Para começo de conversa...

Olá!

Este blog foi criado com o intuito de mostrar de uma forma simples e compreensível a história da escrita. O foco principal está na escrita alfabética, mas é preciso compreender toda a história para que as diferentes  fases sejam reconhecidas. Para isso, sugerimos que os leitores acessem este material aqui.

A partir disso, teceremos as explicações acerca do assunto. Qualquer dúvida pode ser expressa nos comentários, que serão prontamente respondidos. Curiosidades e pesquisas também podem ser adicionadas!

Desejamos uma ótima leitura :)

Gabriela Kloth e Thais de Souza Schlichting